Tema: Entre o “ter” e o “ser”. UNESP 2010.
Hoje, procura-se a fórmula mágica para tudo: como cuidar bem dos filhos, como ser bem-sucedido financeiramente, como ter amigos, como conquistar um amor, como ser feliz. Os livros de auto-ajuda proliferam, e seus autores por vezes se tornam celebridades. É confortador acreditar que tudo o que basta para que consigamos tudo o que pudermos imaginar é seguir alguns passos pré-determinados,e que esses passos sejam conhecidos por tantas pessoas dispostas a revelá-los para o mundo por um valor não muito alto.
Ao mesmo tempo em que a propaganda alcança lucros altíssimos para nos convencer de que tudo o que precisamos na vida é dinheiro, a crença de que este, sozinho, é o segredo para a felicidade também tornou-se muito combatida. “Dinheiro não traz felicidade” hoje é uma frase clichê, algo que todos ouvem e repetem, ainda que não acreditem completamente; e afirmar o contrário sem rodeios é por vezes considerado como uma atitude politicamente incorreta e fútil. Talvez se trate da busca incosciente das sociedades pelo equilíbrio: não é correto valorizar demais nenhum dos lados. O fato é que o tempo passa, guias que afirmam conter as respostas para todos os tipos de problema são publicados, cada vez mais produtos (desnecessários ou não) são criados, e a maior parte da humanidade continua a não se considerar plenamente feliz.
Se não é o dinheiro que traz a felicidade verdadeira, a resposta estará no auto-conhecimento, no desapego das coisas materiais, nas boas relações pessoais, na fé, na vida simples? Esse questionamento parece acompanhar o homem desde o começo dos tempos. Eça de Queirós, no romance A Cidade e as Serras, mostra que seu protagonista, Jacinto, só encontra a real felicidade ao abandonar a vida abastada que tinha na cidade grande para viver em meio à paz do campo. É uma maneira idílica de se resolver a questão: a resposta é a simplicidade. Mas, se um objetivo tão precioso quanto a felicidade fosse tão simples de ser alcançado, os serres humanos seriam muito menos complexos. Provavelmente há aqueles que jamais trocariam uma rotina atribulada em um grande centro urbano e seus bens supérfluos por dias sossegados próximos à natureza.
A triste realidade é que não há uma fórmula universal que dê o caminho a ser trilhado: assim, a resposta definitiva não está no “ser” nem no “ter”. Os humanos possuem semelhanças entre si, mas também possuem particularidades, e o que agrada a uma pessoa, pode não agradar à outra. Talvez existam aqueles que se sintam plenamente realizados apenas com o sucesso profissional, com o conforto material ou com a paz interior; provavelmente existem mais pessoas que procuram atingir uma combinação correta de fatores para se satisfazerem. É preciso encarar que a resposta para a realização pessoal é única para cada um daqueles que a buscam, e intransferível .
2 Comentários em “Caminhos indefinidos.”
Menina, vc tinha que ser colunista … sério! Gostei muito desse texto e você está cada dia melhor =) Daqui a pouco não é mais hobby.
“É preciso encarar que a resposta para a realização pessoal é única para cada um daqueles que a buscam, e intransferível.” Conclusão excelente ^^
beijos